"Dra., qual é melhor: resina ou porcelana?" É uma pergunta que ouço quase diariamente. E minha resposta sempre começa do mesmo jeito: "Depende."
Sei que parece frustrantemente vago, mas a verdade é que ambos materiais são excelentes - cada um em suas indicações específicas. Não existe "melhor absoluto", mas sim "melhor para você, neste dente, neste momento, considerando função, biologia e estética."
A odontologia restauradora moderna evoluiu de uma abordagem "destrutiva" (remover e substituir com metal) para uma filosofia Biomimética - que significa "imitar a vida". O objetivo não é apenas "tapar o buraco" deixado por uma cárie ou fratura, mas restaurar o dente em função e estética, usando materiais que imitam as propriedades do esmalte e da dentina perdidos.
Neste artigo, vou explicar as diferenças reais entre restaurações em resina composta e porcelana (cerâmica), apresentar dados científicos de longevidade (com taxas de sobrevivência aos 10 anos), explicar a filosofia biomimética que guia minhas escolhas, e ajudá-lo a entender qual é ideal para seu caso específico.
O Que São Restaurações Estéticas?
Restaurações estéticas são reparos dentários que, além de restaurar a função mastigatória, também imitam perfeitamente a aparência natural dos dentes - cor, translucidez, textura.
Diferente das antigas restaurações metálicas (aquelas "massas pretas" de amálgama de prata), restaurações estéticas usam materiais da cor do dente que se mesclam perfeitamente com o sorriso. Mas a diferença não é apenas estética - é também filosófica.
Os dois materiais campeões da odontologia biomimética:
- Resina composta: Material plástico reforçado aplicado diretamente no dente (restauração direta)
- Porcelana/Cerâmica: Material cerâmico fabricado em laboratório (restauração indireta — inlays, onlays e Coroas Totais)
Ambos podem ser incrivelmente belos e funcionais. A questão não é "qual é melhor" de forma absoluta, mas "qual é o mais indicado para a sua necessidade biológica e funcional específica, neste dente".
Restaurações em Resina Composta
Vamos começar entendendo as restaurações diretas em resina.
Como Funciona
Processo:
- Remoção da cárie ou parte danificada do dente
- Preparação e condicionamento da estrutura dentária
- Aplicação da resina em camadas
- Escultura do formato anatômico
- Polimerização com luz LED
- Acabamento e polimento
Tempo: Geralmente 1 consulta de 40 minutos a 1 hora (dependendo do tamanho).
Anestesia: Necessária na maioria dos casos.
Vantagens da Resina
1. Resultado Imediato: Sai do consultório com a restauração pronta. Sem espera, sem temporárias.
2. Custo Mais Acessível: Não envolve laboratório, então o investimento é menor.
3. Conservadora: Geralmente requer menos remoção de estrutura dentária sadia.
4. Reparável: Se lascar ou manchar, posso reparar sem refazer completamente.
5. Versatilidade: Posso usar em praticamente qualquer situação - pequena ou grande cavidade, dente anterior ou posterior.
Desvantagens da Resina
1. Durabilidade Menor: Restaurações em resina composta têm sobrevivência mediana de aproximadamente 10 anos, com taxa de sobrevivência aos 10 anos de cerca de 85.7%.
2. Manchamento ao Longo do Tempo: Resina pode manchar gradualmente, especialmente com café, vinho tinto, cigarro. Descoloração marginal (nas bordas) é relativamente comum.
3. Menor Resistência ao Desgaste: Em dentes posteriores com grande carga mastigatória, pode desgastar mais que porcelana.
4. Contração de Polimerização: A resina contrai levemente ao endurecer, o que pode, em cavidades muito grandes, afetar a adaptação marginal.
5. Requer Manutenção: Polimento periódico (a cada 1-2 anos) ajuda a manter o brilho.
Restaurações em Porcelana/Cerâmica
Agora vamos às restaurações indiretas em porcelana.
Tipos de Restaurações em Porcelana
Inlay: Preenche a parte interna do dente (não cobre cúspides).
Onlay: Cobre uma ou mais cúspides do dente.
Overlay: Cobertura mais extensa.
Coroa total: Cobre completamente o dente.
Como Funciona
Processo:
- Preparação do dente (remoção de cárie e preparo)
- Instalação de restauração temporária
- Moldagem ou escaneamento intraoral
- Envio ao laboratório para confecção (1-2 semanas)
- Prova e cimentação da restauração definitiva
- Ajuste e polimento
Tempo: 2 a 3 consultas ao longo de 1-3 semanas.
Vantagens da Porcelana
1. Longevidade Superior: Restaurações em porcelana apresentam sobrevivência de 91.5% aos 10 anos, superior à resina. Estudos mostram sobrevivência >95% aos 5 anos.
2. Estabilidade de Cor Excepcional: Porcelana não mancha. A cor que você escolhe é a cor que permanece por anos.
3. Estética Premium: A translucidez da porcelana imita o esmalte natural de forma superior. Em dentes anteriores, especialmente, o resultado é frequentemente mais natural.
4. Resistência ao Desgaste: Porcelana resiste muito bem à mastigação e ao desgaste ao longo dos anos.
5. Biocompatibilidade Excelente: A gengiva responde muito bem à porcelana - sem irritação ou inflamação.
6. Menos Manutenção: Não requer polimento periódico. Mantém o brilho naturalmente.
Desvantagens da Porcelana
1. Investimento Maior: Envolve trabalho laboratorial especializado, então o custo é mais alto.
2. Requer Duas a Três Consultas: Você precisa usar temporária por 1-3 semanas enquanto a definitiva é confeccionada.
3. Menos Versátil para Reparos: Se fraturar, geralmente precisa ser substituída completamente (não reparável como resina).
4. Pode Requerer Mais Preparo: Para acomodar a espessura da porcelana, às vezes preciso remover um pouco mais de estrutura dentária.
5. Friável: Porcelana é forte sob pressão de mastigação, mas pode fraturar sob impacto (trauma).
A Filosofia Biomimética: O Fim das Coroas Totais?
Antes de compararmos os materiais, preciso explicar uma mudança filosófica fundamental na odontologia moderna que transforma como penso sobre restaurações.
O Problema da Abordagem Tradicional
Tradicionalmente, um dente posterior (molar ou pré-molar) com uma fratura ou cárie extensa era frequentemente "condenado" a uma "coroa total". Este procedimento exige o desgaste de toda a estrutura dental saudável ao redor do dente para "encaixar" a coroa - como cortar um pilar de madeira para colocar uma capa.
Esta é uma abordagem invasiva e não-biomimética. Estamos destruindo tecido sadio para acomodar uma restauração.
A Solução: OMI e Restaurações Parciais Adesivas
A odontologia "segura" e "natural" que pratico, baseada na Odontologia Minimamente Invasiva (OMI), utiliza restaurações parciais adesivas: Inlays e Onlays.
- Inlay: Uma restauração (em resina ou porcelana) que se encaixa dentro da cavidade do dente, sem cobrir as pontas (cúspides)
- Onlay: Uma restauração que cobre uma ou mais cúspides do dente, protegendo-o contra fraturas
Esta abordagem preserva o máximo de estrutura dental sadia, o que é fundamental para a longevidade do dente a longo prazo. A pesquisa mostra que a preservação de tecido dental é mais importante que o material da restauração para o prognóstico a longo prazo.
Como Escolher: A Abordagem Biomimética
Baseio minha recomendação em um diagnóstico biomimético - o material é escolhido para imitar o tecido dental que foi perdido. Aqui está meu processo de pensamento clínico:
Indico RESINA quando:
Restauração pequena a moderada: Para cavidades pequenas, resina é perfeita. Resultado excelente, conservador, custo-benefício ótimo.
Dentes anteriores com defeito pequeno: Lascas pequenas, fechamento de diastemas leves, pequenas correções estéticas.
Orçamento é fator limitante: Resina bem executada é infinitamente melhor que adiar tratamento por questões financeiras.
Paciente jovem: Em adolescentes e adultos jovens, prefiro resina (conservadora e reparável conforme envelhecem).
Necessidade de resultado imediato: Evento importante próximo, viagem, etc.
Dente com risco de trauma: Em atletas de contato, por exemplo, resina é mais tolerante a impactos.
Indico PORCELANA (Inlay/Onlay) quando:
Pensando biomimet icamente:
- Imitando o Esmalte: Se a perda envolve as cúspides (pontas) do dente - áreas que recebem alta carga mastigatória e precisam ser rígidas e resistentes ao desgaste como o esmalte - a Porcelana (Onlay) é a escolha biomimética ideal
- Imitando a Dentina: Se a perda é majoritariamente interna (dentro do dente) e o esmalte ao redor está preservado, a Resina pode ser excelente, pois sua flexibilidade é similar à da dentina
Situações específicas:
Restauração grande: Cavidades extensas que comprometem cúspides ou grande parte do dente. Porcelana oferece melhor proteção estrutural.
Dentes posteriores com grande carga mastigatória: Molares que trituram comida sob muita pressão se beneficiam da resistência superior da porcelana.
Paciente com alto risco de manchamento: Fumantes, consumo muito frequente de café/vinho, histórico de restaurações manchadas.
Estética é prioridade máxima: Quando o paciente valoriza longevidade estética e tem disponibilidade para investir nisso.
Substituição de restaurações antigas em amálgama: Se vamos remover aquela "massa preta" grande, porcelana frequentemente é melhor escolha.
Dentes anteriores com grande comprometimento: Quando precisamos reconstruir significativamente o dente.
Conclusão
Não existe resposta universal para "resina ou porcelana?" - existe a resposta certa para você.
Resina composta oferece excelente custo-benefício, resultado imediato, e versatilidade. Porcelana oferece longevidade superior, estética premium, e resistência excepcional a manchas.
Minha abordagem: Avalio cada dente individualmente, considero sua situação completa (saúde bucal, expectativas, orçamento, estilo de vida), e apresento as opções honestamente. Juntos, decidimos qual material faz mais sentido para você.
O importante é saber que, independentemente do material, você está em boas mãos. Ambos materiais, quando bem executados com técnica adequada, oferecem resultados excelentes que restauram função, estética e sua confiança ao sorrir.
Precisa de restauração e quer discutir qual material é ideal para seu caso? Agende uma consulta comigo no Largo do Machado. Vamos avaliar seus dentes, discutir suas opções, e criar um plano que faça sentido para você - clinicamente, esteticamente, e financeiramente.




